Palestra discute o negro e a negra no mundo da imagem

  • 21 de novembro de 2010
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O Espaço Cultural Casa do Lago (na Unicamp) realizou, no último dia 16/11, uma palestra intitulada “Imagem e Fotografia: o negro e a negra no mundo da imagem”. O encontro compôs a sequência de seminários promovida pelo espaço denominada “O negro e a negra na identidade cultural brasileira”,  realizada em comemoração ao mês da Consciência Negra.

Participaram do debate o webdesigner e funcionário da Assessoria de Imprensa da Unicamp, Everaldo Luís Silva, a jornalista do jornal da Unicamp, Maria Alice da Cruz e o discente em Midialogia e Comunicação Social pela Unicamp, Patrick Koto Nzuambe. 
Everaldo iniciou destacando que uma imagem é compreendida a partir de parâmetros culturais pessoais. “Uma cultura prévia influi na compreensão de uma imagem”, disse. O palestrante mostrou no telão duas imagens, lado a lado. A primeira, do presidente dos EUA, Barack Obama, que foi imediatamente identificada pela plateia. A segunda mostrava o ex-presidente do Brasil, Nilo Peçanha e foi reconhecida por apenas uma pessoa entre os presentes.
Everaldo relembrou que Peçanha – que governou o país em 1909 e 1910 – foi o único mulato presidente do Brasil e que sua afro-descendência era, muitas vezes, “camuflada”. “Muitos jornais modificavam a cor das fotos do ex-presidente, para que não ficasse tão evidente a sua raça”, lembrou.  
O palestrante, que foi se interessando pela cultura negra ao longo da vida, destacou a influência da cultura negra em áreas como a Música, as Artes, os Esportes e a Gastronomia. “A feijoada, por exemplo, foi inventada no Brasil pelos escravos e hoje é preferência nacional”, lembrou.
Ultimamente se dedicando a fotografar pessoas negras em manifestações populares culturais e religiosas na Bahia e em Minas Gerais, Everaldo explicou o teor de sua obra. “Minha fotografia busca a estética, a beleza do negro”, disse, ao apresentar uma sequência de suas melhores imagens feitas sobre este tema. O assessor finalizou: “Infelizmente o Brasil está longe de ser uma democracia racial”.
A jornalista Maria Alice da Cruz relembrou a trajetória do ator José Francisco, que interpretou o primeiro “Tio Barnabé”, do Sítio do Picapau Amarelo, na TV, de 1956 a 1960. Ela mencionou um depoimento do artista sobre a primeira a novela de que participou – “Gata”, na TV Tupi, em 1964. “Segundo ele, a obra chegou a apenas 60 capítulos pois os atores negros alcançaram muito destaque”, disse.
Para Maria Alice, a chegada tardia de pessoas consideradas “espelhos negros” em várias áreas da sociedade, fez com que os afro-descendentes se desencorajassem a buscar seu espaço. “Eu mesma fui espelho para muitas pessoas da minha família ao buscar meu espaço e fazer uma faculdade, mesmo vindo de um lar humilde. Minhas irmãs e outros parentes se inspiraram em mim e é essa mensagem de luta que passo para as minhas filhas”, colocou.
Maria Alice lembrou, na área da dramaturgia, que aos atores negros são reservados, em sua maioria, apenas personagens como empregadas domésticas, escravos, entre outros, que contribuem para estabelecer e  reforçar alguns estereótipos. Segundo ela, muitas coisas também poderiam ser diferentes se grandes atores literários tivessem escrito suas histórias de uma outra maneira. “E se Dona Benta e não a Tia Anastácia do Sítio do Picapau Amarelo, fosse negra? Que exemplo ela teria sido para as mulheres da época? E se Narizinho e Pedrinho fossem negros? Como seria seu exemplo para as crianças negras?”, questionou.
Ainda no universo infantil, a jornalista lembrou que os modelos para as crianças negras ainda são as pessoas brancas. “Os programas infantis, por exemplo, são apresentados por loiras”, colocou.
Encerrando o debate, o discente em Midialogia e Comunicação Social pela Unicamp, Patrick Koto Nzuambe, da República Popular do Congo, na África, comentou sobre a visão estereotipada que as pessoas têm de seu país e falou um pouco sobre a sua trajetória pessoal.
Everaldo Luís Silva: “O Brasil está longe de ser uma democracia racial”
Maria Alice da Cruz relembrou a trajetória e a luta do 1º “Tio Barnabé” da TV
Patrick Koto Nzuambe falou um pouco sobre sua experiência de vida
Everaldo Silva apresentou sua sequência de fotografias de negros e negras
Palestrantes durante o debate na Casa do Lago
Fotos: Letícia Zuppi